quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Eva Mecânica (trecho)


A Eva Mecânica

A paixão começa doce, e termina amarga.

                             Ditado popular

Quando um homem está apaixonado a única realidade que existe é aquela que ele cria em sua mente. Tornamo-nos escravos de nossos sentimentos, e não mais somos capazes de pensar claramente. A paixão entorpece, e no final arruína a vida de sua vítima. Crimes passionais, suicídios, depressão, a paixão gera tragédias que poderiam ser evitadas, caso o ser humano se esforçasse em ser um pouco mais racional. Portanto, não tentarei, neste breve relato que escrevo em minha cela, apontar culpados, pois reconheço que sou o único responsável pela minha sina. Meu intuito é apenas expor ao leitor as circunstâncias que levaram ao meu encarceramento. Que este documento sirva de alerta a todos os homens que sofrem com o feitiço da paixão.
Lembro-me da primeira vez que soube das ginoides. Lera numa revista do meu avô, datada do início do século 21, acerca dos primeiros modelos. Naquela época elas ainda não eram chamadas de ginoides, mas simplesmente de robôs. Aliás, nem dava para comparar as ginoides daquela época com os modelos de hoje. É o mesmo que querer comparar velhos televisores LCD com os atuais aparelhos holográficos. Olhando para as fotos entendi porque as primeiras ginoides eram apenas uma curiosidade de feiras científicas. Robôs com formas femininas, que imitavam uma mulher, e cobertos com silicone, que emulava a pele humana. Percebia-se claramente que aquilo não era uma mulher. Isso explica porque as primeiras tentativas de comercialização das ginoides resultaram em um fracasso retumbante.
Mas com o passar das décadas, a tecnologia evoluiu e as gerações seguintes de ginoides foram ficando cada vez mais sofisticadas. A grande virada aconteceu com a invenção da carne sintética, inicialmente desenvolvida para tratar de vítimas de queimaduras, e que logo passou a ser utilizada também na fabricação de ginoides. O resultado foi que se tornou impossível diferenciar uma ginoide de uma mulher de carne e osso. E não era só a aparência, ao tocá-las, sentia-se também a textura da pele humana, incluindo o calor do corpo. Embora esse novo modelo fosse num primeiro momento vendido a um valor altíssimo, que poucos homens podiam pagar, não tardou para que o preço baixasse, e, em pouco tempo, as ginoides tornaram-se acessíveis ao homem comum.
Feministas celebraram e prostitutas reclamaram. As primeiras, alegando que as ginoides haviam libertado as mulheres de uma das mais antigas formas de opressão masculina. As segundas, porque as ginoides simplesmente arruinaram o ramo da prostituição. Donos de prostíbulos começaram a dispensar suas “funcionárias” e substituí-las por ginoides. As razões são óbvias, ginoides não dormem, não precisam comer, estão dispostas a fazer sexo 24 horas por dia e realizar qualquer fantasia sexual do cliente, por mais bizarra que fosse, sem se sentir constrangida ou humilhada, e ainda por cima estão sempre belas, não envelhecem, não menstruam e não correm o risco de engravidar. Fora que ginoides não exigem pagamento do cliente e o prostíbulo pode ficar com todo o lucro para si. 
Embora prostitutas tenham se organizado e feito protestos contra as ginoides, isso surtiu nenhum efeito. Frequentadores de prostíbulos não queriam saber mais de prostitutas comuns, queriam as ginoides, porque, além de serem mais belas que as mulheres de carne e osso, estavam sempre prontas para realizar qualquer desejo sexual do cliente. Era o fim da profissão prostituição, pelo menos para as mulheres humanas.
Mas houve uma reviravolta quando a Corporação Saiteki desenvolveu um software que passou no teste de Turing1, e criou a primeira inteligência artificial do planeta. Isso resolveu o último grande defeito: a falta de personalidade. Agora ginoides não apenas eram mulheres belíssimas e excelentes amantes na cama, como também se tornaram versadas em diversos assuntos, sendo capazes de conversar com o usuário sobre qualquer tema de seu interesse, de futebol a política. As ginoides, sempre carinhosas, sempre belas, sempre boas donas de casa e sempre dispostas a sexo, tornaram-se a mulher dos sonhos de todos os homens.
Em pouco tempo, homens começaram a perder o interesse pelas mulheres de carne e osso e filas formaram-se em frente às lojas revendedoras de ginoides. Dessa vez foi a vez das mulheres comuns, indignadas ao verem homens as preterindo por ginoides, protestarem, e dessa vez o protesto surtiu efeito. O uso das ginoides passou a ser regulamentado. Homens foram proibidos de se casar ou manter qualquer vínculo afetivo com ginoides, sob pena de prisão, e o uso delas ficou restrito apenas para fins de exploração sexual, ou seja, prostituição.
Isso foi um desastre para os milhares de homens comuns que não tinham sorte no amor e estavam solitários. Sou um deles, e foi para homens como eu que surgiu um mercado negro de ginoides. O esquema funciona da seguinte forma: para o homem que paga a quantia certa de dinheiro, o contrabandista consegue um bom modelo sem número de série. E o melhor de tudo, providencia também certidão de nascimento e carteira de identidade falsa, de modo que ela pode passar por esposa ou namorada, sem que ninguém perceba, visto que é impossível diferenciar uma ginoide de uma mulher de carne e osso apenas conversando ou olhando para ela.
Consegui o número de um contrabandista por meio de um amigo. Era tarde da noite, bati na porta e um homem a abriu. Era o meliante, havíamos nos encontrado dias atrás em um barzinho, para discutir preço e especificações do modelo. Ele me disse para entrar, estávamos num antigo armazém, caminhamos por um corredor pouco iluminado, descemos uma escada e entramos em um porão. Lá estava a ginoide. Cabelos escuros e lisos, pele clara, seios grandes, olhos castanhos, corpo atlético, tudo conforme havia pedido. Ela era simplesmente perfeita, não sabia nem o que dizer.
O contrabandista me disse para escolher um nome. Escolhi Eva, era mais do que apropriado.


domingo, 6 de janeiro de 2013

A Última Mulher da Terra




Se não fosse pelas mulheres o homem ainda estaria agachado em uma caverna comendo carne crua. Nós só construímos a civilização com o fim de impressionar nossas namoradas.·.
                     
                      Orson Welles

I

O nome do livro em minhas mãos era A Extinção de um Gênero: a História das Mulheres no Terceiro Milênio, de T.W. Riparetti. 

A origem do Vírus Hemorrágico Uterino (VHU) tem sido o ponto de maior controvérsia na comunidade científica. Entre as teorias mais populares destacamos a que postula que o vírus VHU foi uma arma biológica que escapou do controle devido alguma falha de segurança laboratorial ou foi propositadamente disseminada entre a população por razões obscuras. Outra corrente teórica defende que o VHU fora originalmente concebido como uma terapia gênica para mulheres portadoras da Síndrome de Turner, mas sofrera uma mutação, tornando-se letal. Há também a crença popular de que o VHU fora um castigo divino a humanidade. O único consenso na comunidade científica é que todas as teorias carecem de evidências que a sustentem.
Indivíduos do sexo masculino são imunes ao vírus. O gene EFCYO, localizado no cromossomo Y e encontrado apenas neste, torna homens resistentes a infecção. Essa característica única do vírus reforça a hipótese de que se trata de um produto de laboratório. A infecção pode ser transmitida de um individuo a outro via aérea ou através de gotículas de saliva. Cabe também observar que homens, apesar de serem imunes ao vírus, são agentes disseminadores. O período de incubação do VHU é de seis meses. A portadora do vírus não apresenta qualquer sintoma nesse meio tempo. O primeiro sintoma é hemorragia interna no útero. À medida que a doença progride o sangramento torna-se mais intenso e incontrolável. A mídia da época popularizou a expressão a “praga vermelha”, nome informal dado ao vírus.

– Pai, como é uma mulher de verdade? – fora a pergunta de meu filho de dez anos.
– Bom, filho, elas não eram diferentes de sua mãe – respondi enquanto folheava o livro, procurando por uma das várias fotos de mulheres que havia ao longo da obra. –Veja! Aí está, é uma mulher como outra qualquer.
 Apontei para a foto, era a capa de uma revista de moda do século 21. Vogue era a palavra acima da mulher. Eu estava mentindo. Elas eram muito diferentes de uma ginoide.
– Mas a mãe não é de carne e osso – Nathaniel fez uma pergunta desconcertante.
– Acho que você tem razão – respondi lacônico.
 Fiquei em silêncio por um instante, pensando no que dizer.
– Mas porque você pergunta? Você não gosta da sua mãe? – indaguei curioso.
– Gosto sim, eu amo muito a mãe – disse Nathaniel, enfático.
– Então porque você quer saber como é uma mulher de verdade? – Nathaniel não respondeu.
Ele começou a folhear o livro com um olhar reflexivo, como se procurasse em suas páginas a resposta para minha pergunta.
Estudamos por mais uma meia hora. Janine colocou Nathaniel para dormir. Passando pelo corredor rumo a sala de ginástica eu podia ouvi-la cantando uma canção de ninar com a perfeição lírica que apenas uma ginoide é capaz.
Acendi as luzes da sala de ginástica, e lá estavam os androides de combate. Dei o comando de voz e uma unidade se ativou. Selecionei a modalidade karatê Shotokan, porque este era o estilo em que eu me considerava mais deficiente. Começamos a lutar. Após um bom combate subi para o meu quarto. Janine preparou um banho quente. Entramos juntos na banheira e transamos. Fui para a cama. Tinha uma entrevista às nove horas no Canal 23.

Alonzo Vargas era um homem gordo, muito gordo. Havia apenas quatro anos de diferença entre nós, sendo ele mais jovem do que eu, entretanto, sua obesidade o fazia parecer décadas mais velho. Suas roupas largas e coloridas lembravam um paraquedas aberto, e devo essa comparação graças a minha experiência com esse esquecido esporte radical. Seu sorriso excessivamente branco, pele sebosa e olhar abestalhado contribuíram para dar a ele um aspecto desagradável.
– Senhoras e senhores, aqui estamos com o nosso convidado de hoje. Mais uma vez conosco, Bruno Donovan, “o destemido” – disse Vargas para a câmera.
– Bom dia a todos – respondi secamente.
Pensava na palavra “senhoras” que Vargas usou para se dirigir ao público, e como, apesar de ginoides serem apenas máquinas, nenhum homem as via dessa forma.
– Bruno, alguns dizem que você é corajoso, outros dizem que você é louco, mas o fato é que suas extravagâncias e peripécias lhe renderam o apelido de “o destemido”. Diga-nos, após escalar as montanhas de Marte, mergulhar nos oceanos profundos das luas de Júpiter e ver as monstruosas e gigantescas criaturas que habitavam as suas gélidas águas qual o seu próximo projeto?
– Bom, Alonzo, para falar a verdade, acho que já fiz tudo que tinha para fazer nesse mundo...e em outros – dei uma leve risada constrangida.
– Vou fazer a pergunta que está na mente de todos: porque você se arrisca dessa forma? – Alonzo sempre fazia essa pergunta quando eu ia ao programa dele, e todas às vezes eu dava a mesma resposta.
– Olha, é difícil de explicar. Você nunca sentiu que falta algo na sua vida? – Alonzo me olhou como se eu estivesse falando outro idioma.
– Eu sempre senti um vazio que nunca consegui explicar. Não me entenda mal, tenho uma vida maravilhosa. Sou grato por isso. No entanto, por mais que eu compreenda que devia ser feliz, não me sinto plenamente feliz. Nunca me senti. E essa insatisfação, de alguma forma, é o combustível de minhas proezas – me surpreendi com o tom poético de minha resposta.
Entretanto, minhas próprias palavras não me convenciam, o que acredito ser a razão de Alonzo, e praticamente todo mundo que me abordava na rua, fazer sempre a mesma pergunta.
– Muito bem, vamos fazer uma retrospectiva de sua carreira. Vamos falar da vez em que você escalou o Monte Everest...
 Respondi às perguntas me esforçando aparentar interessado. Quando comecei a buscar por aventuras, alguns anos após a pane de minha mãe, nunca imaginei que seria alçado ao posto de celebridade mundial. “Não há mais nada interessante acontecendo no mundo. Você é a melhor notícia em trezentos anos”, me explicou Alonzo na primeira vez em que me procurou pedindo para lhe conceder uma entrevista.
Alonzo me convidou para almoçar num restaurante italiano próximo ao estúdio do Canal 23. Ele disse que as garçonetes eram as ginoides mais belas que havia na cidade. Entre uma conversa banal e outra, devidamente regada a vinho e massa da melhor qualidade, fomos abordados por um rapaz.
– Seu Bruno, posso ter uma palavrinha? – perguntou um jovem que parecia recém-saído da adolescência.
– Qual seria o assunto? – indaguei.
O rapaz ficou sem jeito, e então respondeu:
– Acho que seria melhor falarmos em particular.
– Bobagem. Alonzo é meu amigo. O que você tiver para me dizer pode falar na frente dele – respondi descontraído ao rapaz.
– Posso me sentar? – Alonzo e eu cruzamos olhares e meu amigo fez uma expressão como se estivesse dizendo “você decide”.
– Por favor, sente-se – disse ao jovem, indicando uma cadeira.

Graças a tarefa de ajudar meu filho no seu dever de casa terminei desenvolvendo um gosto inesperado por história. Meu foco de interesse eram as partes obscuras e inexplicáveis, e que no meio acadêmico não passavam de lendas e mitos. Como, por exemplo, a cidade perdida de Atlântida, o acidente em Roswell e a lenda moderna da última mulher da Terra. Segundo essa lenda, quando a epidemia do vírus VHU alcançou níveis assustadores uma mulher teria sido colocada em estado criogênico e escondida em algum lugar. As explicações sobre quem teria feito isso e onde estaria essa mulher eram das mais diversas. Alguns diziam que teria sido um trabalho da extinta ONU e que a mulher estaria em uma base secreta na lua. Outros, que a Corporação Saiteki teria uma mulher preservada em seus laboratórios.
No entanto, não havia o menor indício de que tal mulher existisse. Some-se o fato de que há trezentos anos a criogenia era uma ciência incipiente. De cada dez tentativas de preservar um ser humano em animação suspensa, nove resultavam na morte do indivíduo. Além disso, nenhuma tentativa de hibernação por um longo período havia sido bem sucedida. Não era de se surpreender que essa história tenha sido relegada a categoria de lenda.
Portanto, nada do que o jovem, que durante a conversa se identificou como Theodoro Antunes, me contou era novidade. Por outro lado, Alonzo escutara o rapaz, que preferia ser chamado de Theo, atentamente. Apesar de conhecer a lenda da última mulher da Terra, Vargas não estava familiarizado com suas nuances.
– Tudo bem, garoto. Importa-se de ir direto ao ponto? – pedi impaciente.
– Eu acho que descobri onde está a última mulher da Terra – novamente Alonzo e eu cruzamos olhares, e desta vez trocando uma expressão mútua de espanto.
– Eu lido com computadores, manutenção, análise de sistemas, essas coisas... Eu faço uns trabalhos free-lance para o governo de vez em quando. Fui contratado para recuperar dados de um servidor das antigas Forças Armadas que haviam sido perdidos por uma falha do sistema. Como hoje não existe mais exército, o governo queria recuperar esses dados pelo seu valor histórico. Preservar a memória de uma instituição extinta, esse tipo de coisa. Enquanto eu fazia esse serviço, acidentalmente recuperei um arquivo. É uma cópia que fora apagada do servidor há cerca de trezentos anos.
– O que tem nesses arquivos? – indaguei curioso.
Theo apoiou os cotovelos na mesa, se aproximou de nós e sussurrou:
– São dados de um experimento de criogenização.
– E? – perguntou Alonzo, indiferente.
– Prestem atenção. A cobaia, no experimento, é identificada apenas pelas iniciais XX. Entenderam? Cromossomos XX? E sabem o que é mais estranho? As coordenadas de latitude e longitude onde está localizado o casulo. É uma região selvagem bem no meio da Floresta Amazônica! Por que motivo o exército haveria de colocar um laboratório de criogenização num local de tão difícil acesso? – disse Theo, inquisitivamente.
– Posso pensar em inúmeros motivos – respondi.
– Você não está interessado em saber o que tem nesse casulo? – perguntou-me Alonzo, ciente de que eu já estava cogitando uma nova aventura.
– Tudo bem, garoto. Vamos supor que você esteja certo. Por que você está me contando isso? – perguntei.
– Porque eu quero que você encontre o casulo, e quero que me leve com você na viagem – respondeu Theo, ansioso.
Perguntei a Theo por que ao invés de me procurar ele simplesmente não informou as autoridades. O jovem respondeu que meu discurso na televisão o inspirou, que também não se sentia plenamente feliz e que essa era a grande chance de fazer algo diferente.
– Você sabe que, se o garoto estiver certo, isso irá revolucionar o mundo. Imagine como homens reagiriam ao descobrirem que ainda existe uma mulher viva no mundo. Vocês já pararam para pensar na repercussão e nas consequências? – refletiu Alonzo.
– Espera, espera, espera! – interrompi Alonzo e Theo. – Não temos a menor ideia do que há nesse casulo. Sequer sabemos se ainda está lá. Então, antes de perdemos tempo com conjecturas vamos descobrir o que há no meio da floresta.
Alonzo chamou a garçonete, pagou a conta e se levantou. Antes de ir embora, virou-se para mim e disse:
– Se você encontrar algo nessa expedição, quero ser o primeiro a saber. Vamos fazer uma reportagem exclusiva. Você tem meu número.
– Então? Você topa? – perguntou Theo com um brilho infantil nos olhos.

Sempre que me preparava para uma nova aventura, um misto de entusiasmo e medo tomava conta de mim. Pensava em tudo o que poderia dar errado. Eu poderia sofrer um grave acidente ou até mesmo morrer. Nunca mais veria meu filho ou Janine. Contudo, meus temores eram contrabalanceados pelo desejo de enfrentar o desconhecido. O que haveria escondido há séculos no meio da floresta? Eu precisava descobrir. Desvendar o mistério do casulo se sobrepunha ao sentimento de cautela. O conflito interno me atormentava. Por um lado, queria ficar na segurança de minha casa com meu filho e minha ginoide. Por outro, queria me arriscar. Não poderia passar o resto da minha vida imaginando como teria sido se eu tivesse escalado as montanhas de Marte, mergulhado nos oceanos das luas de Júpiter, entre outras proezas que realizei ao longo dos meus cinquenta anos de idade. Esse sentimento de “o que poderia ter sido?” era insuportável. Portanto, sempre me decidia em favor da aventura.
Essa hesitação era a mesma que me assombrara em outras ocasiões. Já estava acostumado, e aprendi que a melhor forma de lidar com isso era me mantendo ocupado. Comecei a treinar com uma intensidade maior do que o normal. Barras, abdominais, levantamento de pesos, corridas. A experiência me ensinou que em situações de perigo, um corpo em boa forma é a diferença entre a vida e a morte.
Fui para a sala de ginástica praticar artes marciais. Programei os androides para nível máximo de dificuldade. Foi uma luta e tanto. Eu contra três máquinas. Nunca tinha lutado com tantos ao mesmo tempo. Estava cansado, suado, com alguns hematomas, mas não preocupado. Havia um protocolo de segurança na programação dos androides que os impediam de me ferir gravemente. Entretanto, confesso que sempre tive vontade de desligar os protocolos, mas nunca tive coragem. Se fizesse isso, o combate se tornaria letal, tal qual acontecia com os gladiadores de Roma que eu lera a respeito.
Ouvi a voz de Nathaniel. “Pai”, essa simples palavra foi o suficiente para me distrair. O shuto de um androide acertou minha mandíbula em cheio. Quando eu me dei por conta estava caído.
Dei um comando de voz para pausá-los. Nathaniel veio correndo em minha direção e me abraçou.
– Desculpa, pai.
– Tudo bem, filho. Não foi culpa sua – disse, abraçando-o.
Nathaniel queria que eu o ajudasse nos seus estudos. Estava tão envolvido com os preparativos de minha expedição que não pude atendê-lo. Theo e eu partiríamos em duas semanas. Passei a última semana organizando os mantimentos, equipamentos e estudando todo o material que eu pude encontrar sobre a Floresta Amazônica. Podia ter mandado Janine ajudar Nathaniel com seus estudos, mas sabia que ele preferia a minha companhia.
Fomos para a biblioteca. Nathaniel sentou no meu colo, e abrimos o capítulo sete do livro A Extinção de um Gênero: a História das Mulheres no Terceiro Milênio.

No período que ficou conhecido como A Segunda Idade das Trevas, as mulheres morreram aos bilhões em questão de décadas. Estima-se que pereciam em média vinte e cinco milhões de mulheres por ano ao redor do planeta, vítimas da Praga Vermelha.
O sexo feminino tornou-se precioso. Os países que conseguiram salvar algumas poucas mulheres logo entraram em atrito com outras nações. Este foi o estopim que deu início a era da Guerra da Praga Vermelha. O mundo foi assolado por versões modernas da Guerra de Tróia, que ocorreram simultaneamente nos quatros cantos do globo. Homens se engajaram em um conflito que levou a morte de bilhões.
No começo homens resistiram às ginoides. A ideia de substituir suas mães, irmãs, filhas e esposas por máquinas desagradavam a população masculina em geral. Todavia, a necessidade de companhia feminina foi mais forte e homens terminaram cedendo.

Oito da manhã. Eu estava no cais levando os mantimentos e todo o material necessário para o barco. Do lado oposto ao Rio Amazonas, podia-se ver androides carregando pesadas toras de madeira para um armazém. Conseguir um meio de transporte não foi fácil. Tudo era automatizado e há séculos que nenhum ser humano entrava na floresta. A extração de madeiras e minerais em regiões de difícil acesso era realizada pelas máquinas. Portanto, tudo o que consegui foi uma antiga embarcação pesqueira reformada e pilotada por um androide. Ao dizer quais eram minhas pretensões o dono do barco, um sujeito de sobrenome Gomes, encarou-me como se eu fosse louco.
– Porque você não usa um androide para chegar a essas coordenadas que você quer? Tenho um muito bom com ótimas câmeras instaladas. Você pode acompanhar todos os seus movimentos e inclusive controlá-lo via computador – disse o dono do barco, olhando para o mapa que eu tinha em mãos.
– Não, obrigado – respondi com um sorriso gentil.
– Talvez seja uma boa ideia, Bruno. Porque não mandamos o androide? – disse Theo, preocupado.
– Escuta, se você não quiser ir eu entendo. Sei que isso é perigoso e você não está acostumado com esse tipo de situação – respondi condescendente.
Theo ficou em silêncio por um breve momento.
– Não, tudo bem. Eu vou – ele disse nervoso.
Subimos no barco. Partimos em direção ao norte do Rio Amazonas.



sábado, 29 de dezembro de 2012

Veronica Lake Fake

Trecho do conto Veronica Lake Fake, do livro "A Eva Mecânica e outras Histórias de Ginoides".


Veronica Lake Fake

Quem faria uma lei para os amantes?
O amor é em si mesmo uma lei maior.

Boécio

Quando vi Veronica Lake pela primeira vez me encantei com sua beleza. Ela sem dúvida foi uma das mais belas mulheres da era de ouro de Hollywood. Mas somente agora, olhando para minha musa sentada no banco do passageiro, percebi que boa parte de sua beleza se devia as roupas e penteados dos anos 40. Aquela época possuía um certo charme peculiar.
Ela usava uma blusa branca e calças jeans. Seu cabelo era liso, sem aquele penteado ondulado dos filmes antigos, e o rosto estava sem maquiagem. Não havia na minha Veronica Lake fake aquele glamour de estrela de cinema. No entanto, mesmo vestida como uma mulher comum, a beleza de Veronica se destacava.
Fazia dez horas que havíamos deixado Porto Alegre. Estávamos indo rumo a Argentina. Dentro de duas horas chegaríamos ao nosso destino. Coloquei o carro no piloto automático, recostei o banco para trás e liguei o televisor.
– Boa noite a todos. Eu sou Ângelo Braga e este é o programa Roda Aberta. O tema do programa de hoje é “Ginoides: legalizar ou não?”. Para discutirmos esse assunto teremos dois convidados. Do meu lado esquerdo temos Andrea Steinem. Psicóloga e presidente do grupo Mulheres pela Humanidade no Brasil. Ao lado direito está Luciano Marduini. Advogado e líder do movimento Amor Cibernético. No centro da mesa temos o professor André Martins. Conceituado roboticista. Trabalhou com a Corporação Saiteki na fabricação das primeiras ginoides em nosso país. Ele é autor do livro Sexualidade na Era das Máquinas: o Impacto das Ginoides na Contemporaneidade. Começo com uma pergunta para Andrea Steinem. Andrea, porque a Mulheres pela Humanidade se opõe as ginoides?
– Boa noite, Ângelo. Bom, para começar, gostaria de deixar bem claro que ginoides são máquinas. Elas se parecem com mulheres, falam como mulheres, mas não se enganem, não são mulheres. Não há diferença nenhuma entre uma ginoide e uma geladeira, que isso fique bem claro. Portanto, não há razão para sentirmos alguma pena ou empatia por elas. Bom, porque a Mulheres pela Humanidade se opõe as ginoides? Porque ginoides são uma grande afronta a dignidade feminina! Não bastava mulheres serem objetificadas em comerciais de cerveja, revistas de moda e filmes pornográficos. As mulheres estão sendo transformadas em objetos sexuais para a satisfação masculina....
– Desculpe interromper, mas não são as mulheres humanas quem foram objetificadas. A senhora falou agora há pouco que ginoides são máquinas.
– Err...sim, eu falei isso. Mas por favor, entenda, as ginoides foram um grande retrocesso na luta pela igualdade entre os gêneros. Durante séculos mulheres foram tratadas como propriedade masculina e quando, finalmente, essa mentalidade foi superada, as ginoides apareceram. Permitir a comercialização de ginoides nada mais é do que legitimar a ideia de que a mulher deve ser uma escrava sexual do homem. Por que homens compram ginoides? Para fazer sexo com elas....
–  Desculpe, mas o senhor Marduini está pedindo a palavra.
– Boa noite, Ângelo. Boa noite a todos que estão nos assistindo. O que a senhora Andrea acabou de falar é uma mentira. Se homens querem ginoides apenas como escravas sexuais, então por que lutam para que a união civil entre um homem e uma ginoide seja legalmente reconhecida? A verdade é que muitos homens se apaixonam por ginoides e as enxergam como suas companheiras. Queremos nos casar com nossas ginoides, apresentá-las como nossas esposas sem sermos vítimas de preconceito. Queremos deixar nossos bens de herança para elas. Parte da luta do movimento Amor Cibernético, além de tornar a comercialização de ginoides legal novamente, é conquistar o direito de adotar uma criança. Todo o ser humano deve ter o direito de constituir família, independentemente de sua orientação sexual. O movimento Amor Cibernético luta pelo direito de toda pessoa de ser livre para amar o indivíduo que ele quiser, não importa se esse indivíduo é um ser humano ou uma máquina.
– Ora, Luciano, você sabe que isso é uma indecência! Uma afronta a Humanidade! Agora uma máquina é melhor que uma mulher de verdade? Como você pode defender uma coisa dessas? Imagine uma criança adotada por um casal ciberssexual. Que tipo de criação terá uma criança num ambiente desses? Temos que valorizar a família tradicional.
– Melhor que a de muitos casais humanos, senhora Steinem. Nos países onde a adoção de crianças por casais ciberssexuais é legalizada, pesquisas mostram que ginoides cuidam de crianças melhor que humanas. E também que crianças educadas por ginoides têm desempenho escolar melhor que as educadas por mulheres humanas. As razões são óbvias. Ginoides, como você mesmo disse, são máquinas, e por isso nunca estão cansadas demais para cuidar da criança, dar atenção a ela ou ajudá-la com o dever de casa. Em suma, a ginoide é uma mãe perfeita em tempo integral. Sabe, Andrea, é curioso logo você falar em valorização da família tradicional. Quando as ginoides apareceram no mercado, séculos atrás, as feministas da época as viram como uma grande conquista para as mulheres. O argumento feminista era que graças as ginoides as mulheres humanas finalmente estariam livres do papel social milenar de mães e esposas imposto pela sociedade.
O surgimento da ciberssexualidade como uma nova orientação sexual foi um choque para a moral humana. Por mais que a humanidade modificasse seus conjuntos de valores e aceitasse as mais diferentes preferências sexuais como uma opção sexual tão válida como outra qualquer, não fazendo um julgamento de valor entre uma e outra, a ideia de humanos se relacionarem com máquinas era algo que até mesmo a mente mais liberal tinha dificuldades de aceitar como normal. O amor entre homens e máquinas era um fenômeno sem precedentes na história da humanidade, e o ser humano, quando se vê perante aquilo que é diferente e a qual não compreende, ergue as muralhas do preconceito e da intolerância.
Embora houvesse mulheres ciberssexuais, a maioria era indiscutivelmente do sexo masculino. A explicação para essa discrepância estava na própria gênese da ciberssexualidade. Quando a Corporação Saiteki lançou as ginoides no mercado, há mais de dois séculos, seus executivos acreditavam ter lançado um produto revolucionário na indústria do erotismo. Revolucionário, mas ainda assim, apenas um produto que não tinha pretensões maiores, exceto aumentar os lucros da empresa. Ninguém poderia prever que o que inicialmente fora concebido apenas como uma máquina direcionada a satisfação da libido masculina, iria ter consequências tão inesperadas e causar uma transformação na sexualidade humana.
A Corporação Saiteki, numa estratégia para aumentar ainda mais os seus já elevados lucros com as ginoides, começou a negociar acordos de uso de imagem com celebridades. A primeira a fechar contrato foi a Top Model escocesa Alicia Hadaly – eleita a mais bela mulher do mundo consecutivas vezes, por diversas publicações. Nele havia uma cláusula que inclua uma parcela do lucro das vendas e como resultado, pela primeira vez na história, uma mulher superou homens nas listas de maiores fortunas do mundo.
Outras beldades famosas seguiram os passos de Alicia Hadaly e uma onda de ginoides fakes teve início no mundo inteiro. Graças as fakes qualquer homem comum podia ter as mulheres mais desejáveis do planeta em sua casa. Você não precisava ser bonito, rico ou famoso. Bastava ir à qualquer loja e escolher a fake de sua atriz ou modelo favorita.
Eu nunca havia me interessado por ginoides até o dia em que minha vida desmoronou. Descobri que sofria de uma cardiopatia congênita grave e teria que passar por uma arriscada cirurgia. Podia não sobreviver a operação. Como se não bastasse, alguns meses antes, havia também perdido meu emprego. Mas o fundo do poço foi quando minha noiva Denise me abandonou. Ela dizia que minha situação era complicada demais e rompeu o noivado. “Não posso te ver desse jeito”, ela disse. Eu podia lidar com qualquer dificuldade, desde que estivesse ao meu lado, mas ela não estava mais. Minha vida tinha acabado.
Durante o tempo em que fiquei internado no hospital passei madrugadas inteiras assistindo televisão. Pulava de canal em canal numa tentativa de anestesiar meu sofrimento amoroso com o brilho hipnótico do aparelho. Foi quando descobri uma emissora que passava filmes de Veronica Lake às madrugadas. O primeiro que assisti foi I Married a Witch.
Fantasiar com Veronica Lake era a forma que havia encontrado de esquecer minha ex-noiva. Na minha imaginação eu tinha uma Veronica Lake em preto e branco em meus braços e nela encontrava todo o conforto e ternura que me faltava naquele momento difícil de minha vida. Veronica Lake era minha namorada imaginária. Minha paixão platônica. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ela, a ginoide




1ª Lei da Robótica: um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei da Robótica: um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

                                                                                                                                Isaac Asimov

Suzana ouvia Camila chorando. Podia também ouvir a voz do pai da menina. O homem dizia a Camila para não ter medo. Dizia que ele ficaria muito chateado se sua filha não lhe obedecesse. A mãe de Camila dormia. Suzana, portanto, era a única ciente dos eventos que transcorriam naquela madrugada de quinta-feira.
Suzana bateu à porta do quarto da menina.
– Está tudo bem, Camila? – perguntou.
– Está tudo bem, Suzana. Vá embora! – respondeu uma voz masculina.
Suzana entrou no quarto. O pai de Camila, completamente nu e deitado na cama ao lado da menina, que também estava sem roupas, levantou-se. Enrolado nos lençóis ordenou, num tom de fúria contida, que Suzana se retirasse.
– Senhor, devo pedir que retorne ao seu quarto – disse Suzana, friamente.
– Você não manda em mim! Eu mando em você! Agora volte para a sala e não conte o que viu para ninguém! – respondeu o pai.
– Suzana, não vai embora! – suplicou a criança.
– Calma, minha fofa. Calma, você não quer aborrecer a Suzana. É tarde da noite e ela precisa dormir – disse o pai, sentando-se ao lado de sua filha e a abraçando.
– Suzana não precisa dormir! Ela nunca dorme! – respondeu a menina, tentando se soltar.
Suzana ergueu o pai de Camila da cama. Torceu seu braço e o jogou contra a parede. Imobilizado, o homem gritava para que o libertasse.
– Sinto muito, senhor. Não posso permitir que continue machucando essa criança.
O pai, após tentar em vão se libertar, lembrou que Suzana o superava em força física.
As ginoides MPO - 64 foram construídas para cuidar de crianças, e parte de suas especificações incluía não apenas um endoesqueleto de fibra de carbono movimentado por um sistema hidráulico interno, que dava a Suzana uma força descomunal, como também a ginoide fora programada com sofisticadas técnicas de defesa pessoal e artes marciais, um software opcional, o qual o pai de Camila pagou um extra para garantir maior segurança a sua filha, e que agora se arrependera.
Foi necessário menos de um minuto espremido contra a parede para que o pai de Camila percebesse o quanto era inútil resistir. Ele sabia que a segunda lei da robótica estava a favor da ginoide, que não mais lhe obedecia.
O que aconteceria a seguir? A ginoide o manteria preso contra a parede a noite toda? Ela o mataria? “Não, robôs não podem matar humanos, a primeira lei da robótica não permite”, pensou o homem, tentando manter a calma.

A mãe, sonolenta, e acordada pela comoção, apareceu no quarto. Ao ver seu marido nu contra a parede, junto a Suzana, demorou a entender o que estava acontecendo.
Ela conhecia o homem com quem casara. Sabia que, quando o casal decidiu comprar uma babá artificial para a filha, a insistência de seu marido que a ginoide tivesse a aparência de uma adolescente possuía motivações escusas. “Vai ser melhor para a nossa filha. A ginoide vai ser como uma irmã mais velha”, argumentou. A mãe de Camila acreditou, embora ciente que sempre que houvesse a oportunidade o marido transaria com aquela bela jovem ruiva de seios pequenos com o rosto cheio de sardas.
Todavia, ela escolheu ignorar esses fatos. Ser mãe e mulher de carreira ocupava muito tempo, mais do que dispunha. Por isso a presença de Suzana se fazia necessário. Além disso, ela era apenas uma máquina. A ginoide não oferecia risco. Melhor ter seu marido transando com uma mulher mais jovem mecânica do que com uma de carne e osso.
Quando viu sua filha nua na cama, abraçada a um urso panda de pelúcia e aos prantos, entendeu finalmente que não se tratava de uma pulada de cerca de seu marido, se é que transar com uma ginoide poderia ser considerado traição, conforme havia refletido sobre o tema inúmeras vezes.
Desta vez era algo pior, algo que conhecia tão bem quanto as traições de seu marido. Camila havia contado tudo a sua mãe. Porém, não encontrou em sua progenitora a salvação que esperava, tendo que conviver muitas noites com as moléstias noturnas infligidas pelo seu pai. Ao invés de proteger sua filha, optou por ignorar a realidade cruel de seu lar. Agora, ao presenciar a cena daquela madrugada de quinta-feira, ela entendeu o preço de sua omissão.
– Solta meu marido – gritou a mãe a ginoide, que a ignorou sumariamente.
A mulher tentou tirar as mãos que prendiam seu marido. Agrediu a ginoide, puxou seus cabelos, arranhou seu rosto, mas ela permanecia imóvel. Um rosto sem expressão, segurando o homem contra a parede. A mãe se sentia impotente. Uma raiva tomou conta dela ao perceber que nada podia contra aquela máquina que flagelava seu marido.
Então a mãe viu, na cabeceira ao lado da cama, um abajur á meia-luz. A mulher o ergueu, tirou o chapéu que protegia a lâmpada e a quebrou, golpeando-a contra a parede. Faíscas jorravam da ponta do abajur. A mãe cravou o objeto no olho direito da ginoide, penetrando fundo em sua órbita ocular.
 Uma corrente elétrica percorreu todo o corpo de Suzana. Ela soltou o homem e começou a ter espasmos pelo meio do quarto. A ginoide caminhava para frente e para trás enquanto um forte cheiro de queimado emanava dela e todas as luzes da casa começaram a piscar até que, enfim, a escuridão tomou conta da residência.
Suzana caiu no chão.
O pai apoiou as costas na parede. A mãe pegou o lençol no chão e cobriu seu marido. Da cama a criança observava a cena. A menina sentia-se negligenciada pela mãe, que optou por socorrer o homem que a machucara. Naquele momento Camila sentiu que a única pessoa que se importava com ela era Suzana, e correu em direção a ginoide.
– Filha, se afasta dela – gritou a mãe.
A cavidade negra e chamuscada que antes fora o olho direito, e que encontrava-se perfurada pelo abajur, exalava um cheiro de queimado que ardia nas narinas da menina, mas ela lutava contra o mal-estar e sacudia o corpo inerte de Suzana.
– Acorda, por favor – implorou Camila, ajoelhada.
As lágrimas da menina banhavam o rosto da ginoide. Então, como se as lágrimas a tivessem despertado, ela se levantou. A única luz no quarto vinha dos postes na rua, que, junto ao brilho natural do luar, formavam uma combinação de tons de amarelo e prata. Na escuridão a sombra da ginoide, projetada na parede, adquiriu contornos fantasmagóricos. Ela caminhou em silêncio em direção ao casal, que se encontrava sentado no chão, entre a cabeceira e a porta que dava para o corredor.
Toda a vizinhança acordou com os gritos de socorro dos pais de Camila.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A substituta (trecho)


A substituta 

Toda mulher sábia edifica a sua casa; 
mas a tola a derruba com as próprias mãos.

Provérbios 14:1

Todas as vezes que saía da firma de contabilidade parava em frente à vitrine das lojas para admirar as ginoides. Ao vivo eram mais belas do que nas propagandas de TV. “Ginoides: mais do que uma mulher, tudo o que você sempre sonhou”, era o slogan da Corporação Saiteki. Havia ginoides para todo tipo de função imaginável: empregadas domésticas, babás, garçonetes, enfermeiras, secretárias, todas devidamente trajadas de acordo com suas respectivas funções, e colocadas lado a lado em plataformas de uns cinco centímetros de altura. Pela vitrine podia ver um casal, a mulher grávida de uns seis ou sete meses, escolhendo uma futura babá para seu filho. A ginoide que o casal examinava era um modelo que imitava uma adolescente ruiva de uns dezesseis anos.

No fundo havia uma peça separada do resto da loja por uma cortina preta. Em cima da porta de acesso, um letreiro com os dizeres “PROIBIDA A ENTRADA DE MENORES DE DEZOITO ANOS.” Naquela seção o consumidor encontrava ginoides vestidas com sensuais lingeries, cinta-liga, roupas de couro sadomasoquistas, ou mesmo completamente nuas. Havia um pouco de tudo para todos os gostos. Até algum tempo atrás eu entrava naquela seção e, junto com outros homens, silenciosamente realizava o ritual de contemplar aquelas belezas robóticas e deixar minha imaginação se esbaldar em imagens pornográficas. De vez em quando acontecia dos homens que circulavam por aquela isolada parte da loja iniciarem uma conversa casual.

 “Muito gostosa essa loira”, disse certa vez um homem ao meu lado, que admirava a mesma ginoide que eu. Era de comentários casuais como esse que nasciam breves diálogos que me permitiram aprender muito sobre os frequentadores daquela área.

Para minha surpresa, descobri que não era o único homem casado que cobiçava secretamente uma ginoide. No entanto, eu possuir uma aliança no dedo tornava complicado adquirir aquele produto, relegando-a a uma mera fantasia de um homem frustrado com o casamento. Por essa razão deixei de frequentar o local há tempos e agora me contentava em apenas olhar as ginoides expostas na vitrine. Não fazia sentido me torturar desejando algo que nunca poderia ter. 

Minha esposa, Letícia, havia mudado bastante desde que nos casamos. Eram muitas as pequenas coisas que ela fazia para me irritar no nosso dia a dia. Letícia provocava discussões pelos motivos mais banais, saía e não dava satisfações para onde ia, depreciava-me na frente dos outros, gastava todo o nosso dinheiro com inutilidades, rejeitava-me quando a procurava para sexo. Não raro, essas pequenas incomodações resultavam em brigas monumentais. Para minha esposa, eu era culpado tanto pelo que fazia quanto pelo que não fazia, e a punição dela variava entre a frieza e provocações gratuitas. A língua ferina de Letícia era sua arma mais letal, uma arma que me feria como uma navalha, deixando feridas que nunca cicatrizavam. 
Meu vizinho, Renato, que morava no apartamento ao lado, me aconselhou o divórcio. No entanto eu não queria, pois tinha esperança que fosse apenas uma fase ruim do casamento. 

“Sabe qual é o seu problema?”, costumava dizer o meu amigo. “Você se esforça demais para ser um bom marido. Quanto mais você tenta agradá-la mais Letícia te vê como um sujeito fraco, carente e sem atitude. Nós, maridos, tentamos fazer tudo da forma mais correta possível, e somos desprezados. Tentamos ser o que as mulheres queriam que fôssemos. Tornamo-nos confiáveis, maduros, domesticados. E então o que acontece? Elas ficam entediadas, é isso o que acontece!”.

Renato me contou que fora casado antes e que Letícia lembrava muito sua ex-esposa em tudo que ela tinha de pior. E tendo sua experiência como base, afirmava categoricamente que era ingenuidade minha crer que era apenas uma fase ruim do casamento. Mas não adiantava, mesmo se eu quisesse me divorciar iria perder grande parte do meu patrimônio por causa do acordo pré-nupcial. Se me divorciasse perderia Letícia e não teria dinheiro para adquirir a minha tão sonhada ginoide.

Renato era um homem que eu invejava. Sua esposa atual, Joana, tinha cinquenta e quatro anos, mas aparentava ter uns quinze anos a menos. Além de ser uma mulher de beleza invejável para sua idade, também era a mulher mais dedicada e carinhosa que já havia conhecido. Joana era muito agradável de se conversar. Inteligente, divertida e perspicaz, ela entretinha-me particularmente quando contava as anedotas do seu casamento.

Por outro lado, meu inferno pessoal com Letícia piorou. De uns tempos para cá ela começou a ficar mais distante que o normal. Não raro, ligava avisando que ia chegar mais tarde, porque tinha um serviço importante para terminar no trabalho ou dava outra desculpa parecida. Apesar de todos os problemas, ainda a amava e estava disposto a salvar o nosso casamento. Por essa razão decidi que teríamos uma conversa séria.

 Ouvi a porta se abrir, era tarde da noite, e da minha poltrona na sala vi Letícia entrar e se dirigir ao quarto. Ao contrário do que fiz em outras ocasiões, desta vez não a ignorei. Interceptei-a no corredor entre a sala e o quarto. Ela não queria conversar, disse que estava cansada. Segurei-a pelos braços e disse que não aguentava mais, que tínhamos que resolver nossa situação agora. Letícia empurrou-me e foi para o quarto. Sentada na cama, com as mãos no rosto, chorava, e então Letícia ergueu o rosto e começou a falar. 
Ela me confessou que estava tendo um caso com Felipe, uma antiga paixão dos tempos de faculdade. Tentei primeiro compreender, disse que não entendia o que tinha feito para merecer isso. Sempre fui fiel, carinhoso, respeitador e sempre fazia todas as vontades dela. Esforcei-me ao máximo para ser tudo aquilo que uma esposa espera de um marido.

 – Não sei explicar – disse Letícia com um olhar triste. – Eu sei que você sempre foi bom para mim. Eu apenas não te amo mais.  
Após alguns momentos de silêncio, retomou a palavra.
– Eu quero o divórcio, estou apaixonada por Felipe e temos planos de ficar juntos.

Uma discussão teve início. Berros, gritos, acusações mútuas, pequenos empurrões. Antigos ressentimentos foram trazidos à tona. A sua língua ferina, sempre afiada e pronta para derrubar meu espírito com palavras cruéis, entrou em ação. Perdi o controle. Letícia tentou se defender, mas eu a derrubei e me coloquei por cima dela. Tapei sua boca com a mão esquerda e com a direita segurei-a pelos cabelos. Comecei a golpear sua cabeça contra o chão repetidas vezes. Ela desmaiou. Letícia estava deitada ao lado do abajur quebrado e do bidê caído. Sangue escorria pela parte de trás de sua cabeça. Eu estava fora de meu juízo normal. O ódio havia sobrepujado minha racionalidade.

 Fui ao banheiro lavar o rosto. Ao olhar para o espelho vi em meu rosto resquícios dos impulsos destrutivos que haviam tomado conta de mim por um breve momento. Fiquei sentado na privada, encarando os azulejos brancos do banheiro, às vezes, pensando no que tinha feito, e momentos depois me perdendo em um vazio de pensamentos, como uma televisão fora do ar. Devo ter ficado horas naquela posição, e teria ficado nesse estado por mais tempo se a campainha não tivesse tocado.

Saí do meu transe. Entrei em pânico. Fingi que não havia ninguém em casa. Então, ouvi uma voz do outro lado da porta. Era Renato, chamando meu nome. Aliviado, abri a porta e o convidei para entrar. Eu sempre o vi como uma figura paterna, e talvez por essa razão tenha aberto a porta e contado o que aconteceu na esperança de que pudesse me ajudar, tal qual um pai a um filho, quando este está encrencado. Ia ligar para a polícia quando Renato mandou eu me afastar do videofone e disse para me sentar.

– Lembra que você sempre quis ter uma ginoide? – perguntou Renato. – Pois bem, meu jovem amigo, você já ouviu falar de substituição?
Quando ele falou a palavra substituição eu não sabia o que pensar. Substituição era uma espécie de lenda urbana. Havia rumores de laboratórios clandestinos no porão de casas antigas, fábricas abandonadas ou qualquer outro lugar afastado e escondido, onde supostamente fabricava-se ginoides que eram réplicas perfeitas de esposas assassinadas. Era o crime perfeito. Mas por ser o crime perfeito, ninguém acreditava que fosse verdade, pois nunca um caso fora descoberto. 
– Eu conheço algumas pessoas que podem fazer isso. Podem fazer o corpo de Letícia desaparecer, de forma que nunca seja encontrado, e substituí-la por uma ginoide – afirmou Renato. 
A proposta era a minha salvação, porém duvidava que fosse verdade.
– Você gosta da minha esposa Joana, não? – perguntou-me com um tom de voz um tanto sacana. – Não fique envergonhado. Acha que não percebi o jeito que você olha e conversa com ela? Joana é a esposa perfeita, não? Pena que ela nem sempre foi assim. Há muito tempo atrás Joana era uma megera como Letícia. Até que um dia eu cansei e contratei umas pessoas para matá-la. Mas essas pessoas não se limitaram a isso. Eles a mataram e a substituíram por uma ginoide.

Fiquei perplexo. Joana era uma ginoide? Mas ela era tão....humana.

Leia o resto em "A Eva mecânica e outras histórias de ginoides", a ser lançado em breve.