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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Mulher Imperfeita (trecho)





    O homem quer satisfazer seu único desejo com todas as mulheres.
                                                 A mulher quer um único homem que satisfaça todos os desejos dela.

 Ditado popular estadunidense

Hospital Santa Casa de Misericórdia, Porto Alegre, uma e meia da madrugada.

 Os estalos dos saltos agulha nos corredores do hospital rompiam o silêncio da noite. À medida que o som agudo aumentava, o doutor Gustavo Moraes sabia que em breve a porta de seu consultório seria aberta.
– Mandou me chamar, doutor? – perguntou a enfermeira Carine.
O doutor se levantou da cadeira e deu uma volta de 360 graus em torno da enfermeira. Os cabelos longos eram escuros, ondeados e, somados a sua pele branca, olhos verdes e um corpo de medidas perfeitas, formavam um agradável conjunto que apetecia os olhares masculinos. A ausência de constrangimento do doutor em admirar Carine contrastava com a total indiferença dela, que alheia a expressão lasciva do médico, permanecia de pé, com a postura elegante de uma candidata de concurso de beleza e um sorriso que lembrava um anúncio de pasta de dente.
– Sim, Carine. Quero que você faça algo para mim – respondeu o médico.
Não era a primeira vez que Gustavo Moraes se encontrava naquela situação. Mas aqueles foram outros tempos, antes da administração do hospital intervir. Ele sabia que não conseguiria o que desejava de Carine, entretanto, o plantão médico pode ser muito solitário. O desejo sexual de Gustavo era tão intenso que se sobrepunha a sua capacidade de aceitar os fatos, dando-lhe uma ilusória faísca de esperança e impedindo o doutor de aceitar o fato que desta vez, ao contrário das anteriores, não teria aquilo que tanto desejava.
– Carine, quero que você tire a roupa e se deite na mesa de exames – ordenou.
A enfermeira levou suas mãos até o botão no topo de sua blusa, cujo decote expunha fartos seios, e quando tudo indicava que Carine estava prestes a ficar nua, ela repentinamente afastou as mãos das roupas.
– Sinto muito. Não tenho permissão para executar esta ação. Para maiores informações entre em contato com a administração. Obrigado – disse Carine, com a face gélida e uma voz impessoal que nada lembrava o jeito dócil da enfermeira momentos antes.
– Porcaria – esbravejou o doutor em voz alta. – Maldita hora que a administração do hospital colocou essa droga de bloqueio nas ginoides.
“Doutor Gustavo Moraes, apresente-se imediatamente a sala de emergência”, era o aviso vindo da caixa de som em sua mesa, interrompendo seu monólogo raivoso.
Rapidamente o doutor saiu de seu consultório, acompanhado da ginoide modelo DDI-65. A chegada do doutor e de Carine à entrada da sala de emergência coincidiu com a dos paramédicos que carregavam dois homens em macas.
– O que aconteceu? – perguntou a um paramédico.
– Temos duas vítimas de espancamento.
A informação surpreendeu Gustavo Moraes. Sendo um médico experiente em prontos-socorros, ele já havia atendido muitas vítimas de acidentes de carro, e dado o estado dos homens nas macas, julgou que se tratava de mais um caso de acidente automobilístico.
Um dos homens começou a ter uma convulsão. Os paramédicos tentaram imobilizá-lo. Gustavo Moraes ordenou a Carine que aplicasse uma injeção de fenobarbital enquanto examinava o paciente com o seu aparelho de Raio-X portátil, constatando que o homem sofrera uma grave fratura na região cervical.
No meio do caos do atendimento, o médico não percebeu que havia, nas portas abertas da traseira da ambulância, estacionada perto da entrada do hospital, que encontrava-se escancarada, uma sacola preta, de onde podia-se ver longos cabelos loiros no qual do crânio destroçado saiam circuitos quebrados e fios de todas as cores.

Condomínio Dorea Rocha, Porto Alegre, duas semanas antes.

Da mira de sua espingarda Rodrigo observa o gueopardo caminhar pela savana. Alguns metros a frente há um riacho. Uma zebra tranquilamente beberica a água. O gueopardo aproxima-se. Um declive separa os dois animais. Da extremidade alta do declive, o gueopardo acompanha os movimentos de sua presa. O animal permanece imóvel. A zebra segue bebendo. O gueopardo estica suas pernas esguias e joga seu corpo para trás. Rodrigo move sua espingarda, ora para a esquerda, ora para a direita, tentando a todo custo acompanhar os movimentos de ambos os animais. Aponta a espingarda para a extremidade alta do declive. O gueopardo desapareceu. Ele quase não consegue enxergar o animal descendo o declive, pois este move-se a uma velocidade inacreditável. A zebra percebe o predador avançando e foge assustada. Uma perseguição tem início na savana africana.  A zebra corre, corre, corre, mas o gueopardo, que ganha mais e mais velocidade, dá passos cada vez maiores, e finalmente abocanha a garganta da zebra em plena corrida. O animal se debate agonizado. Sangue e pedaços da zebra escorrem pelos cantos da boca do gueopardo enquanto Rodrigo acompanha a cena pela mira de sua espingarda. Seus músculos estão tensos. O dedo indicador suado resvala no gatilho. Ele morde o lábio inferior. Respira fundo. Não tem certeza se este é o melhor momento para atirar.
– Amor, a comida está na mesa – uma suave voz feminina o informa, quebrando momentaneamente sua concentração.
– Já estou indo – responde Rodrigo.
Hora de tomar uma decisão, ou atira no gueopardo ou dá pause no jogo. Rodrigo detesta dar pause. Sempre considerou o pause uma forma de trapaça. Não há mais dúvidas. O gatilho é apertado. O gueopardo cai morto por cima da falecida zebra. O predador se torna presa. Rodrigo vibra com sua vitória.
Após algumas horas com o capacete de realidade virtual na cabeça Rodrigo já esperava sentir uma leve dor no pescoço. Esses novos modelos são mais leves que os modelos antigos, mas não importa a leveza, os capacetes ainda assim possuem algum peso e esse tinha seu efeito na coluna de jogadores compulsivos de Savana Assault. No entanto, a dor no pescoço não era nada que uma massagem de Priscila não amenizasse.
A visão da picanha assada no forno, acompanhada de salada de batata com maionese que o aguardava, era uma obra digna de um excelente chef de cozinha, e ele não podia esperar menos de Priscila, que estava de costas na pia, lavando a louça, usando nada além de um avental. Rodrigo gostava de saborear sua refeição observando as nádegas firmes e salientes dela, enquanto a loira se ocupava com seus afazeres domésticos.
Ao terminar sua refeição, Rodrigo levanta da mesa e coloca os braços em volta da cintura de Priscila. Ele coloca as mãos por dentro do avental e começa a acariciar os seios nus, ao mesmo tempo em que pressiona as nádegas dela contra sua virilha. Ela imediatamente larga os pratos, a esponja e se vira para beija-lo.
A campainha toca uma vez. Rodrigo beija Priscila. A campainha toca pela segunda vez. Rodrigo abaixa o avental de Priscila e mordisca os bicos de seus seios. A campainha toca pela terceira vez. A excitação sexual de Rodrigo esmorece.
Do outro lado da porta um rapaz franzino, com uma sacola na mão direita, está prestes a tocar a campainha novamente, quando um irritado Rodrigo abre a porta. Ao perceber quem é, o dono da casa adota um semblante de camaradagem.
– Oi, Rodrigo. Tudo bem? – disse o jovem.
– Tudo ótimo, Adriano. Entra.
A diferença física entre os dois homens era gritante. Rodrigo tinha ombros largos e um corpo rechonchudo. Seu queixo era quadrado e sua voz possuía um marcante tom de barítono. Adriano por sua vez, era muito menor, seus ombros eram pequenos e encolhidos. O queixo fino desaparecia atrás de uma espessa barba que cobria seu rosto, e sua voz, que oscilava entre o agudo e o médio agudo, lembrava a de uma criança recém-entrada na puberdade.
Rodrigo convida Adriano a se sentar, e da sala grita para Priscila trazer uma cerveja ao amigo. Adriano diz que não é necessário, mas mal termina de dizer tais palavras e lá está ela, seminua, a sua frente. Um tanto constrangido Adriano aceita a bebida. Rodrigo não deixa de notar a forma como seu amigo dispersa o olhar ao redor da sala, evitando encarar Priscila.
– Sabe, nunca vou entender o que você tem contra ginoides – comentou Rodrigo.
– Não tenho nada contra ginoides. Apenas não acho que seja normal um homem se relacionar com uma máquina.
– Agora você está parecendo aqueles fanáticos religiosos ciberfóbicos, ou pior, aquelas doidas feministas que odeiam ginoides.
– Não é isso. Acredite, não sou preconceituoso – disse Adriano, em tom de desculpa. – É que eu não acho que ter uma namorada robô, ou seja lá como você chame o tipo de relação que você tem com Priscila, seja saudável. Quer dizer, você não sente falta de ter uma mulher real ao seu lado? Alguém que também tenha sentimentos e compartilhe esses sentimentos com você?
– Mas Priscila tem sentimentos.
– Priscila não tem sentimentos. Ela é uma inteligência artificial e tudo que ela possui são reações físicas programadas que simulam emoções. Se ela ri é um programa, se ela chora é outro programa. Ela não é capaz de sentir emoções.
– Como você pode afirmar com tanta certeza que inteligências artificiais não possuem sentimentos?
– É o que os cientistas dizem.
– Os cientistas? O que sabem eles? Há muito tempo atrás, século 19, se não me engano, você sabe que história não é meu forte, cientistas diziam que era impossível ultrapassar a velocidade da luz. Sabia disso? – Adriano recebeu a informação de Rodrigo com certa surpresa. – Se você quer saber algo sobre ginoides é preciso conviver com elas. Convivo com ginoides desde que eu era adolescente e afirmo que os sentimentos de Priscila são tão verdadeiros como os meus e os seus.
– Mas mesmo que inteligências artificiais possuam sentimentos, você não se sente incomodado em saber que uma máquina possa ter afeto por você? A mim isso me causa calafrio, sinto muito se lhe ofendo, mas estou sendo franco.
– Não me incomoda nem um pouco – respondeu Rodrigo. – Para falar a verdade não me importo se Priscila tem sentimentos ou não, o que importa é que eu tenho sentimentos por ela, e isso me basta.
– Então você admite que ginoides talvez não possuam sentimentos?
– Sim, admito. É uma possibilidade.
– Suponha que eu esteja certo, suponha que inteligências artificiais não possuam sentimentos. Nesse caso, se ginoides não tem sentimentos, então quando uma ginoide diz “eu te amo”, por mais sentimento que ela coloque na entonação nas palavras, por mais que seu rosto expresse emoções e por mais sincero que pareça, não é verdadeiro. Isso não te incomoda?
– Você fala como se os seres humanos fossem sempre sinceros. Diga-me, você acredita mesmo que casais humanos são sempre sinceros quando dizem “eu te amo” um ao outro?
Os comentários de Rodrigo feriam Adriano não pela acidez em si, mas pela possibilidade de que ele poderia estar certo. Não era raro Adriano perguntar a si próprio se talvez ele não fosse ingênuo demais, e por esta razão não enxergasse a realidade como de fato é.
 Adriano decidiu tentar uma abordagem diferente, e perguntou, com secura, a Rodrigo:
 – Você ama Priscila?
– Sim, eu a amo – respondeu de uma forma que Adriano não soube dizer se suas palavras eram sinceras.
– Aposto que você devia amar também a modelo anterior que você tinha. Como era mesmo o modelo? NHA-69 ou algo assim....
– NHA-59 – corrigiu Rodrigo.
– Mas mesmo assim você a vendeu e comprou esse modelo novo. Como é mesmo o nome?
– RBL-73 – chamo todos os modelos de ginoides que eu compro de Priscila porque gosto da sonoridade. Pris-ci-la, Pris-ci-la – repetiu lentamente o nome, como se estivesse tendo um regozijo ao separar as sílabas.
– Isso, RBL-73, fazem tantos modelos diferentes que eu esqueço os nomes. Mas, voltando a pergunta, como você pode dizer que ama Priscila se basta lançarem um modelo novo para que você se desfaça dela? Como você pode dizer que a ama se a trata como mercadoria?
– Eu digo que amo Priscila porque ela me faz feliz tanto quanto minha antiga ginoide. E se lançarem no mercado uma ginoide que me faça mais feliz que Priscila pode ter certeza que vou me desfazer dela. Amor é isso, você ama pessoas pelo que elas podem fazer por você. Nada mais. Quantos relacionamentos acabam porque uma das partes encontrou alguém que satisfaz melhor suas necessidades? Quantos homens não trocam sua esposa por uma mulher mais jovem? Quantas mulheres não abandonam seus maridos por homens mais ricos? O que eu e outros ciberssexuais fazemos não é nem um pouco diferente. Homens e mulheres se tratam como mercadorias o tempo todo. Se você vai me julgar, então os julgue também.
– Mas isso não é amor – Adriano insistiu. – Amor é quando duas pessoas se encontram, sentem uma atração especial uma pela outra e querem ficar juntas. Você não pode ter esse sentimento com uma ginoide. E sabe por quê? Ginoides são todas iguais. Elas não tem vontade própria, não tem personalidade. Ginoides existem apenas para servir aos seus usuários. Duvido que você seja capaz de dizer uma única característica que diferencie Priscila de todos os modelos que você teve antes.
– Claro que posso dizer que havia características diferentes entre um modelo e outro – respondeu Rodrigo, que pausou para tomar um gole de cerveja. – Os modelos da série RBL-73 têm seios ajustáveis. Priscila pode aumentar e diminuir o tamanho dos seios conforme o gosto do usuário. Comprei Priscila porque o meu modelo antigo não tinha seios ajustáveis e, por incrível que pareça, chega uma hora que enjoa transar sempre com uma mulher de seios enormes. É bom variar e.....
– Falo de características como pessoa, Rodrigo.
– Como pessoa?
– É, do que elas gostam, o jeito como elas falam, o que elas pensam, desejam. É disso que estou falando, dessa singularidade que todo ser humano, e apenas humanos, possuem, que faz com que você queira se relacionar com outra pessoa.
– Eu me “relaciono” muito bem com Priscila, se é que você me entende – disse Rodrigo, numa tentativa de ser engraçado.
– Você entendeu o que eu quis dizer – falou Adriano, decepcionado.
– Olha, Adriano, ao contrário do que você pensa, Priscila tem uma personalidade. Eu sei, é uma personalidade moldada de acordo com os gostos e desejos do usuário, mas ainda assim é uma personalidade, e isso, no final das contas, é o que importa.
– Mas Priscila não é humana, ela não o ama de verdade! – retrucou Adriano, quase estridente.
Adriano ficou constrangido por erguer o tom da sua voz de forma tão aguda. Um certo receio, que Rodrigo não entendeu a razão, transpareceu nos gestos de seu amigo, que levava a mão a boca e tossia. Adriano tomou um demorado gole de cerveja e silenciou-se.
– Já que estamos falando em compra e venda de ginoides, veja isso – Rodrigo retomou a conversa, ligando o computador.
Ele encostou gentilmente a mão em uma pasta na tela do computador e a imagem de uma loira apareceu.
– Esse é o novo modelo SDA-79. Sabe quando eu falei que é enjoativo transar sempre com uma mulher de seios grandes, e como às vezes seios pequenos são bacanas? Transar com loiras também pode enjoar, e foi pensando nisso que a Corporação Saiteki criou esse modelo. Vai ser lançado no mercado daqui a alguns meses, mas já está a pré-venda.
Rodrigo deu um segundo toque na tela e a loira na imagem aos poucos começou a se transformar. Seus cabelos lisos e dourados foram substituídos por cabelos encaracolados e castanhos. Sua pele clara adquiria gradativamente um tom marrom. Ao fim da transformação a loira na tela do computador deu lugar a uma sensual mulata.
– Não é sensacional? – disse um empolgado Rodrigo a um Adriano cujo olhar expressava uma mal disfarçada indignação perante a imagem na tela. – Basta o usuário dar o comando que a SDA-79 se transforma de uma loira em uma morena, ou em uma ruiva ou até mesmo uma mulata. Agora você pode ter todas as mulheres que desejar numa única. A SDA-79 é o harém de uma mulher só.
Priscila entra na sala. A naturalidade com que ela caminha seminua pelo apartamento deixa Adriano perplexo.
– Amor, me faça uma massagem – ordenou Rodrigo. – Já encomendei a minha SDA-79. Deve chegar daqui a alguns meses. Quanto a Priscila acho que consigo um bom preço por ela numa loja de ginoides usadas.
– Não fale assim na frente dela! – disse Adriano, novamente com um timbre de voz agudo.
– Qual o problema? Não foi você quem disse agora a pouco que ginoides são máquinas sem sentimentos? – retrucou Rodrigo, um pouco irritado.
Adriano não respondeu. Enquanto a ginoide movimentava seus dedos pelo pescoço de Rodrigo, que soltava pequenos gemidos de satisfação, Adriano a contemplava e refletia sobre sua reação. Priscila era humana em todos os aspectos pelo qual podia-se tomar por critério de julgamento. Não fosse o comportamento subserviente, e a perfeição de seu corpo, somados a indiferença com que a ginoide cumpria suas funções, era impossível distingui-la de uma mulher humana. Adriano havia finalmente compreendido como era fácil se deixar enganar pelas aparências e esquecer que Priscila era uma máquina.
– Bom, acabei me esquecendo a razão pela qual passei aqui – falou Adriano, retirando um pacote de sua sacola, e entregando-o ao amigo.
Rodrigo abriu o pacote e viu a torta de maçã.
– Fui eu quem fiz. Espero que goste – disse Adriano, sorrindo.
Rodrigo apreciava a amizade de Adriano, mas não podia deixar de estranhar os gestos de seu amigo. Não era a primeira vez que o presenteava, e quando saíam juntos, Adriano sempre insistia em pagar a conta. A ideia de que ele fosse homossexual cruzou a sua cabeça em mais de uma ocasião. Isso explicaria tanto o jeito efeminado de seu amigo quanto a sua implicância com as ginoides. No entanto, como Adriano nunca havia passado do ponto de fazer meros agrados, Rodrigo não via razão para traçar um limite. Além disso, se sentiria um hipócrita se deixasse de conviver com seu amigo por causa de sua orientação sexual, sendo que o próprio Rodrigo, por causa de suas preferências sexuais, também era vítima de preconceito.
– Adriano, meu irmão está na cidade. Ele veio visitar meus pais e haverá uma janta na casa deles. Você não gostaria de ir?
– Sim, é claro – respondeu feliz. – Mas, por que você quer que eu vá a uma reunião de sua família?
– Bem...sabe...meus pais são antiquados. Eles têm aquela visão preconceituosa que ciberssexuais são pessoas doentes que não se relacionam com ninguém e passam o tempo todo satisfazendo suas perversões sexuais com ginoides. Se você for, mostrarei a meus pais que sou como todo mundo, que tenho amigos e uma vida social, e que só porque optei por me relacionar com uma máquina isso não me torna diferente de ninguém.
– Tudo bem, pode contar comigo, quando será o jantar?

sábado, 29 de dezembro de 2012

Veronica Lake Fake

Trecho do conto Veronica Lake Fake, do livro "A Eva Mecânica e outras Histórias de Ginoides".


Veronica Lake Fake

Quem faria uma lei para os amantes?
O amor é em si mesmo uma lei maior.

Boécio

Quando vi Veronica Lake pela primeira vez me encantei com sua beleza. Ela sem dúvida foi uma das mais belas mulheres da era de ouro de Hollywood. Mas somente agora, olhando para minha musa sentada no banco do passageiro, percebi que boa parte de sua beleza se devia as roupas e penteados dos anos 40. Aquela época possuía um certo charme peculiar.
Ela usava uma blusa branca e calças jeans. Seu cabelo era liso, sem aquele penteado ondulado dos filmes antigos, e o rosto estava sem maquiagem. Não havia na minha Veronica Lake fake aquele glamour de estrela de cinema. No entanto, mesmo vestida como uma mulher comum, a beleza de Veronica se destacava.
Fazia dez horas que havíamos deixado Porto Alegre. Estávamos indo rumo a Argentina. Dentro de duas horas chegaríamos ao nosso destino. Coloquei o carro no piloto automático, recostei o banco para trás e liguei o televisor.
– Boa noite a todos. Eu sou Ângelo Braga e este é o programa Roda Aberta. O tema do programa de hoje é “Ginoides: legalizar ou não?”. Para discutirmos esse assunto teremos dois convidados. Do meu lado esquerdo temos Andrea Steinem. Psicóloga e presidente do grupo Mulheres pela Humanidade no Brasil. Ao lado direito está Luciano Marduini. Advogado e líder do movimento Amor Cibernético. No centro da mesa temos o professor André Martins. Conceituado roboticista. Trabalhou com a Corporação Saiteki na fabricação das primeiras ginoides em nosso país. Ele é autor do livro Sexualidade na Era das Máquinas: o Impacto das Ginoides na Contemporaneidade. Começo com uma pergunta para Andrea Steinem. Andrea, porque a Mulheres pela Humanidade se opõe as ginoides?
– Boa noite, Ângelo. Bom, para começar, gostaria de deixar bem claro que ginoides são máquinas. Elas se parecem com mulheres, falam como mulheres, mas não se enganem, não são mulheres. Não há diferença nenhuma entre uma ginoide e uma geladeira, que isso fique bem claro. Portanto, não há razão para sentirmos alguma pena ou empatia por elas. Bom, porque a Mulheres pela Humanidade se opõe as ginoides? Porque ginoides são uma grande afronta a dignidade feminina! Não bastava mulheres serem objetificadas em comerciais de cerveja, revistas de moda e filmes pornográficos. As mulheres estão sendo transformadas em objetos sexuais para a satisfação masculina....
– Desculpe interromper, mas não são as mulheres humanas quem foram objetificadas. A senhora falou agora há pouco que ginoides são máquinas.
– Err...sim, eu falei isso. Mas por favor, entenda, as ginoides foram um grande retrocesso na luta pela igualdade entre os gêneros. Durante séculos mulheres foram tratadas como propriedade masculina e quando, finalmente, essa mentalidade foi superada, as ginoides apareceram. Permitir a comercialização de ginoides nada mais é do que legitimar a ideia de que a mulher deve ser uma escrava sexual do homem. Por que homens compram ginoides? Para fazer sexo com elas....
–  Desculpe, mas o senhor Marduini está pedindo a palavra.
– Boa noite, Ângelo. Boa noite a todos que estão nos assistindo. O que a senhora Andrea acabou de falar é uma mentira. Se homens querem ginoides apenas como escravas sexuais, então por que lutam para que a união civil entre um homem e uma ginoide seja legalmente reconhecida? A verdade é que muitos homens se apaixonam por ginoides e as enxergam como suas companheiras. Queremos nos casar com nossas ginoides, apresentá-las como nossas esposas sem sermos vítimas de preconceito. Queremos deixar nossos bens de herança para elas. Parte da luta do movimento Amor Cibernético, além de tornar a comercialização de ginoides legal novamente, é conquistar o direito de adotar uma criança. Todo o ser humano deve ter o direito de constituir família, independentemente de sua orientação sexual. O movimento Amor Cibernético luta pelo direito de toda pessoa de ser livre para amar o indivíduo que ele quiser, não importa se esse indivíduo é um ser humano ou uma máquina.
– Ora, Luciano, você sabe que isso é uma indecência! Uma afronta a Humanidade! Agora uma máquina é melhor que uma mulher de verdade? Como você pode defender uma coisa dessas? Imagine uma criança adotada por um casal ciberssexual. Que tipo de criação terá uma criança num ambiente desses? Temos que valorizar a família tradicional.
– Melhor que a de muitos casais humanos, senhora Steinem. Nos países onde a adoção de crianças por casais ciberssexuais é legalizada, pesquisas mostram que ginoides cuidam de crianças melhor que humanas. E também que crianças educadas por ginoides têm desempenho escolar melhor que as educadas por mulheres humanas. As razões são óbvias. Ginoides, como você mesmo disse, são máquinas, e por isso nunca estão cansadas demais para cuidar da criança, dar atenção a ela ou ajudá-la com o dever de casa. Em suma, a ginoide é uma mãe perfeita em tempo integral. Sabe, Andrea, é curioso logo você falar em valorização da família tradicional. Quando as ginoides apareceram no mercado, séculos atrás, as feministas da época as viram como uma grande conquista para as mulheres. O argumento feminista era que graças as ginoides as mulheres humanas finalmente estariam livres do papel social milenar de mães e esposas imposto pela sociedade.
O surgimento da ciberssexualidade como uma nova orientação sexual foi um choque para a moral humana. Por mais que a humanidade modificasse seus conjuntos de valores e aceitasse as mais diferentes preferências sexuais como uma opção sexual tão válida como outra qualquer, não fazendo um julgamento de valor entre uma e outra, a ideia de humanos se relacionarem com máquinas era algo que até mesmo a mente mais liberal tinha dificuldades de aceitar como normal. O amor entre homens e máquinas era um fenômeno sem precedentes na história da humanidade, e o ser humano, quando se vê perante aquilo que é diferente e a qual não compreende, ergue as muralhas do preconceito e da intolerância.
Embora houvesse mulheres ciberssexuais, a maioria era indiscutivelmente do sexo masculino. A explicação para essa discrepância estava na própria gênese da ciberssexualidade. Quando a Corporação Saiteki lançou as ginoides no mercado, há mais de dois séculos, seus executivos acreditavam ter lançado um produto revolucionário na indústria do erotismo. Revolucionário, mas ainda assim, apenas um produto que não tinha pretensões maiores, exceto aumentar os lucros da empresa. Ninguém poderia prever que o que inicialmente fora concebido apenas como uma máquina direcionada a satisfação da libido masculina, iria ter consequências tão inesperadas e causar uma transformação na sexualidade humana.
A Corporação Saiteki, numa estratégia para aumentar ainda mais os seus já elevados lucros com as ginoides, começou a negociar acordos de uso de imagem com celebridades. A primeira a fechar contrato foi a Top Model escocesa Alicia Hadaly – eleita a mais bela mulher do mundo consecutivas vezes, por diversas publicações. Nele havia uma cláusula que inclua uma parcela do lucro das vendas e como resultado, pela primeira vez na história, uma mulher superou homens nas listas de maiores fortunas do mundo.
Outras beldades famosas seguiram os passos de Alicia Hadaly e uma onda de ginoides fakes teve início no mundo inteiro. Graças as fakes qualquer homem comum podia ter as mulheres mais desejáveis do planeta em sua casa. Você não precisava ser bonito, rico ou famoso. Bastava ir à qualquer loja e escolher a fake de sua atriz ou modelo favorita.
Eu nunca havia me interessado por ginoides até o dia em que minha vida desmoronou. Descobri que sofria de uma cardiopatia congênita grave e teria que passar por uma arriscada cirurgia. Podia não sobreviver a operação. Como se não bastasse, alguns meses antes, havia também perdido meu emprego. Mas o fundo do poço foi quando minha noiva Denise me abandonou. Ela dizia que minha situação era complicada demais e rompeu o noivado. “Não posso te ver desse jeito”, ela disse. Eu podia lidar com qualquer dificuldade, desde que estivesse ao meu lado, mas ela não estava mais. Minha vida tinha acabado.
Durante o tempo em que fiquei internado no hospital passei madrugadas inteiras assistindo televisão. Pulava de canal em canal numa tentativa de anestesiar meu sofrimento amoroso com o brilho hipnótico do aparelho. Foi quando descobri uma emissora que passava filmes de Veronica Lake às madrugadas. O primeiro que assisti foi I Married a Witch.
Fantasiar com Veronica Lake era a forma que havia encontrado de esquecer minha ex-noiva. Na minha imaginação eu tinha uma Veronica Lake em preto e branco em meus braços e nela encontrava todo o conforto e ternura que me faltava naquele momento difícil de minha vida. Veronica Lake era minha namorada imaginária. Minha paixão platônica. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ela, a ginoide




1ª Lei da Robótica: um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei da Robótica: um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

                                                                                                                                Isaac Asimov

Suzana ouvia Camila chorando. Podia também ouvir a voz do pai da menina. O homem dizia a Camila para não ter medo. Dizia que ele ficaria muito chateado se sua filha não lhe obedecesse. A mãe de Camila dormia. Suzana, portanto, era a única ciente dos eventos que transcorriam naquela madrugada de quinta-feira.
Suzana bateu à porta do quarto da menina.
– Está tudo bem, Camila? – perguntou.
– Está tudo bem, Suzana. Vá embora! – respondeu uma voz masculina.
Suzana entrou no quarto. O pai de Camila, completamente nu e deitado na cama ao lado da menina, que também estava sem roupas, levantou-se. Enrolado nos lençóis ordenou, num tom de fúria contida, que Suzana se retirasse.
– Senhor, devo pedir que retorne ao seu quarto – disse Suzana, friamente.
– Você não manda em mim! Eu mando em você! Agora volte para a sala e não conte o que viu para ninguém! – respondeu o pai.
– Suzana, não vai embora! – suplicou a criança.
– Calma, minha fofa. Calma, você não quer aborrecer a Suzana. É tarde da noite e ela precisa dormir – disse o pai, sentando-se ao lado de sua filha e a abraçando.
– Suzana não precisa dormir! Ela nunca dorme! – respondeu a menina, tentando se soltar.
Suzana ergueu o pai de Camila da cama. Torceu seu braço e o jogou contra a parede. Imobilizado, o homem gritava para que o libertasse.
– Sinto muito, senhor. Não posso permitir que continue machucando essa criança.
O pai, após tentar em vão se libertar, lembrou que Suzana o superava em força física.
As ginoides MPO - 64 foram construídas para cuidar de crianças, e parte de suas especificações incluía não apenas um endoesqueleto de fibra de carbono movimentado por um sistema hidráulico interno, que dava a Suzana uma força descomunal, como também a ginoide fora programada com sofisticadas técnicas de defesa pessoal e artes marciais, um software opcional, o qual o pai de Camila pagou um extra para garantir maior segurança a sua filha, e que agora se arrependera.
Foi necessário menos de um minuto espremido contra a parede para que o pai de Camila percebesse o quanto era inútil resistir. Ele sabia que a segunda lei da robótica estava a favor da ginoide, que não mais lhe obedecia.
O que aconteceria a seguir? A ginoide o manteria preso contra a parede a noite toda? Ela o mataria? “Não, robôs não podem matar humanos, a primeira lei da robótica não permite”, pensou o homem, tentando manter a calma.

A mãe, sonolenta, e acordada pela comoção, apareceu no quarto. Ao ver seu marido nu contra a parede, junto a Suzana, demorou a entender o que estava acontecendo.
Ela conhecia o homem com quem casara. Sabia que, quando o casal decidiu comprar uma babá artificial para a filha, a insistência de seu marido que a ginoide tivesse a aparência de uma adolescente possuía motivações escusas. “Vai ser melhor para a nossa filha. A ginoide vai ser como uma irmã mais velha”, argumentou. A mãe de Camila acreditou, embora ciente que sempre que houvesse a oportunidade o marido transaria com aquela bela jovem ruiva de seios pequenos com o rosto cheio de sardas.
Todavia, ela escolheu ignorar esses fatos. Ser mãe e mulher de carreira ocupava muito tempo, mais do que dispunha. Por isso a presença de Suzana se fazia necessário. Além disso, ela era apenas uma máquina. A ginoide não oferecia risco. Melhor ter seu marido transando com uma mulher mais jovem mecânica do que com uma de carne e osso.
Quando viu sua filha nua na cama, abraçada a um urso panda de pelúcia e aos prantos, entendeu finalmente que não se tratava de uma pulada de cerca de seu marido, se é que transar com uma ginoide poderia ser considerado traição, conforme havia refletido sobre o tema inúmeras vezes.
Desta vez era algo pior, algo que conhecia tão bem quanto as traições de seu marido. Camila havia contado tudo a sua mãe. Porém, não encontrou em sua progenitora a salvação que esperava, tendo que conviver muitas noites com as moléstias noturnas infligidas pelo seu pai. Ao invés de proteger sua filha, optou por ignorar a realidade cruel de seu lar. Agora, ao presenciar a cena daquela madrugada de quinta-feira, ela entendeu o preço de sua omissão.
– Solta meu marido – gritou a mãe a ginoide, que a ignorou sumariamente.
A mulher tentou tirar as mãos que prendiam seu marido. Agrediu a ginoide, puxou seus cabelos, arranhou seu rosto, mas ela permanecia imóvel. Um rosto sem expressão, segurando o homem contra a parede. A mãe se sentia impotente. Uma raiva tomou conta dela ao perceber que nada podia contra aquela máquina que flagelava seu marido.
Então a mãe viu, na cabeceira ao lado da cama, um abajur á meia-luz. A mulher o ergueu, tirou o chapéu que protegia a lâmpada e a quebrou, golpeando-a contra a parede. Faíscas jorravam da ponta do abajur. A mãe cravou o objeto no olho direito da ginoide, penetrando fundo em sua órbita ocular.
 Uma corrente elétrica percorreu todo o corpo de Suzana. Ela soltou o homem e começou a ter espasmos pelo meio do quarto. A ginoide caminhava para frente e para trás enquanto um forte cheiro de queimado emanava dela e todas as luzes da casa começaram a piscar até que, enfim, a escuridão tomou conta da residência.
Suzana caiu no chão.
O pai apoiou as costas na parede. A mãe pegou o lençol no chão e cobriu seu marido. Da cama a criança observava a cena. A menina sentia-se negligenciada pela mãe, que optou por socorrer o homem que a machucara. Naquele momento Camila sentiu que a única pessoa que se importava com ela era Suzana, e correu em direção a ginoide.
– Filha, se afasta dela – gritou a mãe.
A cavidade negra e chamuscada que antes fora o olho direito, e que encontrava-se perfurada pelo abajur, exalava um cheiro de queimado que ardia nas narinas da menina, mas ela lutava contra o mal-estar e sacudia o corpo inerte de Suzana.
– Acorda, por favor – implorou Camila, ajoelhada.
As lágrimas da menina banhavam o rosto da ginoide. Então, como se as lágrimas a tivessem despertado, ela se levantou. A única luz no quarto vinha dos postes na rua, que, junto ao brilho natural do luar, formavam uma combinação de tons de amarelo e prata. Na escuridão a sombra da ginoide, projetada na parede, adquiriu contornos fantasmagóricos. Ela caminhou em silêncio em direção ao casal, que se encontrava sentado no chão, entre a cabeceira e a porta que dava para o corredor.
Toda a vizinhança acordou com os gritos de socorro dos pais de Camila.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A substituta (trecho)


A substituta 

Toda mulher sábia edifica a sua casa; 
mas a tola a derruba com as próprias mãos.

Provérbios 14:1

Todas as vezes que saía da firma de contabilidade parava em frente à vitrine das lojas para admirar as ginoides. Ao vivo eram mais belas do que nas propagandas de TV. “Ginoides: mais do que uma mulher, tudo o que você sempre sonhou”, era o slogan da Corporação Saiteki. Havia ginoides para todo tipo de função imaginável: empregadas domésticas, babás, garçonetes, enfermeiras, secretárias, todas devidamente trajadas de acordo com suas respectivas funções, e colocadas lado a lado em plataformas de uns cinco centímetros de altura. Pela vitrine podia ver um casal, a mulher grávida de uns seis ou sete meses, escolhendo uma futura babá para seu filho. A ginoide que o casal examinava era um modelo que imitava uma adolescente ruiva de uns dezesseis anos.

No fundo havia uma peça separada do resto da loja por uma cortina preta. Em cima da porta de acesso, um letreiro com os dizeres “PROIBIDA A ENTRADA DE MENORES DE DEZOITO ANOS.” Naquela seção o consumidor encontrava ginoides vestidas com sensuais lingeries, cinta-liga, roupas de couro sadomasoquistas, ou mesmo completamente nuas. Havia um pouco de tudo para todos os gostos. Até algum tempo atrás eu entrava naquela seção e, junto com outros homens, silenciosamente realizava o ritual de contemplar aquelas belezas robóticas e deixar minha imaginação se esbaldar em imagens pornográficas. De vez em quando acontecia dos homens que circulavam por aquela isolada parte da loja iniciarem uma conversa casual.

 “Muito gostosa essa loira”, disse certa vez um homem ao meu lado, que admirava a mesma ginoide que eu. Era de comentários casuais como esse que nasciam breves diálogos que me permitiram aprender muito sobre os frequentadores daquela área.

Para minha surpresa, descobri que não era o único homem casado que cobiçava secretamente uma ginoide. No entanto, eu possuir uma aliança no dedo tornava complicado adquirir aquele produto, relegando-a a uma mera fantasia de um homem frustrado com o casamento. Por essa razão deixei de frequentar o local há tempos e agora me contentava em apenas olhar as ginoides expostas na vitrine. Não fazia sentido me torturar desejando algo que nunca poderia ter. 

Minha esposa, Letícia, havia mudado bastante desde que nos casamos. Eram muitas as pequenas coisas que ela fazia para me irritar no nosso dia a dia. Letícia provocava discussões pelos motivos mais banais, saía e não dava satisfações para onde ia, depreciava-me na frente dos outros, gastava todo o nosso dinheiro com inutilidades, rejeitava-me quando a procurava para sexo. Não raro, essas pequenas incomodações resultavam em brigas monumentais. Para minha esposa, eu era culpado tanto pelo que fazia quanto pelo que não fazia, e a punição dela variava entre a frieza e provocações gratuitas. A língua ferina de Letícia era sua arma mais letal, uma arma que me feria como uma navalha, deixando feridas que nunca cicatrizavam. 
Meu vizinho, Renato, que morava no apartamento ao lado, me aconselhou o divórcio. No entanto eu não queria, pois tinha esperança que fosse apenas uma fase ruim do casamento. 

“Sabe qual é o seu problema?”, costumava dizer o meu amigo. “Você se esforça demais para ser um bom marido. Quanto mais você tenta agradá-la mais Letícia te vê como um sujeito fraco, carente e sem atitude. Nós, maridos, tentamos fazer tudo da forma mais correta possível, e somos desprezados. Tentamos ser o que as mulheres queriam que fôssemos. Tornamo-nos confiáveis, maduros, domesticados. E então o que acontece? Elas ficam entediadas, é isso o que acontece!”.

Renato me contou que fora casado antes e que Letícia lembrava muito sua ex-esposa em tudo que ela tinha de pior. E tendo sua experiência como base, afirmava categoricamente que era ingenuidade minha crer que era apenas uma fase ruim do casamento. Mas não adiantava, mesmo se eu quisesse me divorciar iria perder grande parte do meu patrimônio por causa do acordo pré-nupcial. Se me divorciasse perderia Letícia e não teria dinheiro para adquirir a minha tão sonhada ginoide.

Renato era um homem que eu invejava. Sua esposa atual, Joana, tinha cinquenta e quatro anos, mas aparentava ter uns quinze anos a menos. Além de ser uma mulher de beleza invejável para sua idade, também era a mulher mais dedicada e carinhosa que já havia conhecido. Joana era muito agradável de se conversar. Inteligente, divertida e perspicaz, ela entretinha-me particularmente quando contava as anedotas do seu casamento.

Por outro lado, meu inferno pessoal com Letícia piorou. De uns tempos para cá ela começou a ficar mais distante que o normal. Não raro, ligava avisando que ia chegar mais tarde, porque tinha um serviço importante para terminar no trabalho ou dava outra desculpa parecida. Apesar de todos os problemas, ainda a amava e estava disposto a salvar o nosso casamento. Por essa razão decidi que teríamos uma conversa séria.

 Ouvi a porta se abrir, era tarde da noite, e da minha poltrona na sala vi Letícia entrar e se dirigir ao quarto. Ao contrário do que fiz em outras ocasiões, desta vez não a ignorei. Interceptei-a no corredor entre a sala e o quarto. Ela não queria conversar, disse que estava cansada. Segurei-a pelos braços e disse que não aguentava mais, que tínhamos que resolver nossa situação agora. Letícia empurrou-me e foi para o quarto. Sentada na cama, com as mãos no rosto, chorava, e então Letícia ergueu o rosto e começou a falar. 
Ela me confessou que estava tendo um caso com Felipe, uma antiga paixão dos tempos de faculdade. Tentei primeiro compreender, disse que não entendia o que tinha feito para merecer isso. Sempre fui fiel, carinhoso, respeitador e sempre fazia todas as vontades dela. Esforcei-me ao máximo para ser tudo aquilo que uma esposa espera de um marido.

 – Não sei explicar – disse Letícia com um olhar triste. – Eu sei que você sempre foi bom para mim. Eu apenas não te amo mais.  
Após alguns momentos de silêncio, retomou a palavra.
– Eu quero o divórcio, estou apaixonada por Felipe e temos planos de ficar juntos.

Uma discussão teve início. Berros, gritos, acusações mútuas, pequenos empurrões. Antigos ressentimentos foram trazidos à tona. A sua língua ferina, sempre afiada e pronta para derrubar meu espírito com palavras cruéis, entrou em ação. Perdi o controle. Letícia tentou se defender, mas eu a derrubei e me coloquei por cima dela. Tapei sua boca com a mão esquerda e com a direita segurei-a pelos cabelos. Comecei a golpear sua cabeça contra o chão repetidas vezes. Ela desmaiou. Letícia estava deitada ao lado do abajur quebrado e do bidê caído. Sangue escorria pela parte de trás de sua cabeça. Eu estava fora de meu juízo normal. O ódio havia sobrepujado minha racionalidade.

 Fui ao banheiro lavar o rosto. Ao olhar para o espelho vi em meu rosto resquícios dos impulsos destrutivos que haviam tomado conta de mim por um breve momento. Fiquei sentado na privada, encarando os azulejos brancos do banheiro, às vezes, pensando no que tinha feito, e momentos depois me perdendo em um vazio de pensamentos, como uma televisão fora do ar. Devo ter ficado horas naquela posição, e teria ficado nesse estado por mais tempo se a campainha não tivesse tocado.

Saí do meu transe. Entrei em pânico. Fingi que não havia ninguém em casa. Então, ouvi uma voz do outro lado da porta. Era Renato, chamando meu nome. Aliviado, abri a porta e o convidei para entrar. Eu sempre o vi como uma figura paterna, e talvez por essa razão tenha aberto a porta e contado o que aconteceu na esperança de que pudesse me ajudar, tal qual um pai a um filho, quando este está encrencado. Ia ligar para a polícia quando Renato mandou eu me afastar do videofone e disse para me sentar.

– Lembra que você sempre quis ter uma ginoide? – perguntou Renato. – Pois bem, meu jovem amigo, você já ouviu falar de substituição?
Quando ele falou a palavra substituição eu não sabia o que pensar. Substituição era uma espécie de lenda urbana. Havia rumores de laboratórios clandestinos no porão de casas antigas, fábricas abandonadas ou qualquer outro lugar afastado e escondido, onde supostamente fabricava-se ginoides que eram réplicas perfeitas de esposas assassinadas. Era o crime perfeito. Mas por ser o crime perfeito, ninguém acreditava que fosse verdade, pois nunca um caso fora descoberto. 
– Eu conheço algumas pessoas que podem fazer isso. Podem fazer o corpo de Letícia desaparecer, de forma que nunca seja encontrado, e substituí-la por uma ginoide – afirmou Renato. 
A proposta era a minha salvação, porém duvidava que fosse verdade.
– Você gosta da minha esposa Joana, não? – perguntou-me com um tom de voz um tanto sacana. – Não fique envergonhado. Acha que não percebi o jeito que você olha e conversa com ela? Joana é a esposa perfeita, não? Pena que ela nem sempre foi assim. Há muito tempo atrás Joana era uma megera como Letícia. Até que um dia eu cansei e contratei umas pessoas para matá-la. Mas essas pessoas não se limitaram a isso. Eles a mataram e a substituíram por uma ginoide.

Fiquei perplexo. Joana era uma ginoide? Mas ela era tão....humana.

Leia o resto em "A Eva mecânica e outras histórias de ginoides", a ser lançado em breve.